Gabriel Silva analisa o regresso à competição

Gabriel Silva, preparador físico, analisou a retoma do campeonato e todas as epecificidades do regime competitivo em tempo de pandemia.

Que efeitos teve a paragem no rendimento das equipas?

O rendimento coletivo e individual está inferior ao habitual na generalidade das equipas. Isso deve-se ao facto de não se conseguir passar o estímulo de treino a que os jogadores estavam habituados em termos de modelos de jogo e das suas especificidades. Apesar de se terem elaborado planos individuais, não foi possível reproduzir o jogo de futebol e aquilo que são ideias e modelo de jogo do treinador. Como não houve permissão por parte da DGS para realizar jogos contra outras equipas não foi viável verificar em contexto de jogo o rendimento da equipa antes da retoma da competição.

Quer dizer que se perdeu a parte da preparação que engloba os automatismos do modelo de jogo que se pretende implementar…

Exatamente. Aquilo que tentamos reproduzir é o que o treinador quer transportar para o terreno de jogo. Se, por exemplo, pretende uma equipa com um bloco mais baixo e que está talhada para sair em transição, com mais espaço e maior velocidade, nós temos de ter um tipo de trabalho diferente com esses jogadores em relação a uma equipa que procura dominar o jogo com bola, que privilegia o ataque posicional, o que requer outro tipo de estímulo. Nós tentámos induzir os estímulos físicos, como força, resistência ou velocidade no momento de aquisição dos princípios de jogo através dos exercícios coletivos, intersectoriais, sectoriais ou grupais. É óbvio que algum trabalho tem de ser feito de forma isolada, para se chegar aos níveis máximos de rendimento de cada jogador, mas sempre respeitando a individualidade do jogador e o modelo de jogo do treinador.

Nesta fase, em que se está a procurar melhorar o rendimento, as cinco substituições ajudam de alguma forma?

É muito benéfico. Permite ao treinador ter mais momentos para mexer com o jogo e no planeamento estratégico para o jogo tem já isso em conta, por exemplo, na forma como quer pressionar, como quer abordar os primeiros minutos de jogo ou nas mudanças que se pretendem fazer na forma como se está a jogar. Nesse aspeto, é muito positivo, sobretudo para o lado estratégico do jogo.

Pode-se dizer então que estas cinco substituições tornam as equipas mais constantes no jogo e ajudam a manter o nível de resistência dos jogadores?

Mais importante ainda que a resistência, em termos físicos, permite manter ações explosivas durante o mais de tempo de jogo. Um jogador pode aguentar os 90 minutos, mas ter uma quebra no que diz respeito às intervenções de alta intensidade, como sprints e acelerações e também ver afetada as suas tomadas de decisão e a sua execução técnica. Portanto, poderá permitir uma intensidade superior, em termos coletivos, de comportamentos para cumprir o plano de jogo.

O calendário para este final de campeonato é muito mais irregular do que o habitual, com jogos a meio da semana, quebrando a dinâmica de ter a semana toda para preparar o jogo. Isso afeta o vosso trabalho?

Sim, quando há um microciclo congestionado, com mais de um jogo por semana, tem de se dar primazia à recuperação e modelar o treino no sentido de incluir algumas dinâmicas que se vão levar para o jogo, nomeadamente quanto à forma como se vai atacar e defender, muitas vezes através de exercícios “coreografados” ou de recurso ao vídeo. É algo que as equipas que não têm competições internacionais não estão habituadas a fazer e que podem sentir no decorrer dos vários jogos. A rotatividade do plantel pode atenuar isso, mas isso depende da qualidade dos jogadores e da forma como o treinador lidera e quer envolver toda a equipa no projeto do clube.

A utilização dos sub-23 tem ajudado à rotatividade?

Quanto a esse aspeto, é importante dar os parabéns a quem trabalha com os jogadores nos sub-23, uma vez que os desempenhos desses jogadores têm vindo a acrescentar qualidade. Todos os que chegam querem agarrar a oportunidade pois vêm com o intuito claro de se mostrar e isso cria mais competitividade dentro do grupo. Esperamos sempre aproveitar o trabalho que está a ser feito por parte dos sub-23.

Concorda com a forma como esta retoma foi elaborada, em termos de preparação das equipas?

Nós treinamos para jogar de determinada forma e para aferimos se a equipa está a evoluir temos o jogo. Se não o temos, estamos a treinar para um jogo que irá acontecer passado muito tempo e sem nenhum jogo prévio para analisar como está a equipa. De qualquer forma, estava à espera que as equipas que tivessem um modelo de jogo mais bem definido fossem as que beneficiassem porque a manifestação do seu jogo poderia estar mais bem vincada. Mas parece-me que as equipas se prepararam bem, em termos do rendimento individual dos jogadores e estão a criar problemas às equipas teoricamente superiores pela ausência desse contexto competitivo. Esta esta sequência de exercícios individuais, que evoluíram para exercícios setoriais e, por fim, coletivos não foi suficiente. O futebol é um jogo de interações e não havendo essas interações é muito mais difícil haver qualidade no campo.

O facto de não haver público nas bancadas influencia o comportamento do jogador em campo?

O público dá aquela motivação extra que permite a um jogador, por exemplo, dar um pouco mais numa disputa de bola. Claro que se espera que um jogador tenha um nível de concentração regular ao longo de todo o jogo.  No entanto sabemos que isso não é humanamente possível e um estímulo externo como o apoio dos adeptos vai ajudar a manter o foco. Por outro lado, permite ao treinador ter outro tipo de intervenção, porque se consegue ouvir o feedback dentro do campo.

Main Sponsor





Official Partners